//Eu poderia?

Eu poderia?

Não esperaria tanto, na silenciosa estação, aguardando o trem verde que, invariavelmente, se atrasa todo dia. Não gritaria entre vidros, em uma cabine telefônica, com a respiração de inverno embaçando o vidro. Não correria, em meio à floresta morta, com seu tapete marrom e seus troncos cinzas. Não cairia em um poço raso de desejos abandonados. Não ouviria os prantos amargos dos prados secos em que pastam os cavalos decrépitos, colocados de lados por serem estranhos à beleza mútua dos corcéis indomáveis. Eu diria que poderia ser um jovem, sem essas marcas estranhas que surgem no rosto e no peito, sem esses caminhos trilhados nos meus olhos, quase como rios mal feitos que desaguam em lugar nenhum. Eu diria que poderia apaixonar-me por você, entregar-me de corpo e alma, completamente e singularmente, como numa constelação. Eu diria que poderia ser feliz em campos Elísios terreno a nossa existência, dizendo-me que o céu é algum lugar ao seu lado.

Entretanto. Todavia. Não há uma certeza correta nesses caminhos que seguimos, olhando para todos os lados como num zoológico particular, onde os únicos animais presos nas jaulas fossem várias cópias de mim mesmo. Cada uma com um destino diferente, brincando com todas as possiblidades e chances. De se quebrar? De se construir? De se compartilhar?

Eu poderia entregar-me. Afogar-me. Despertar-me. Entretanto, não poderia cumprir com o relógio diário, seguindo todos os ponteiros rigorosos de atenção. Não poderia quebrar a inércia de enfrentar frente a frente o fardo de concertar cada mísero pedaço que ainda me resta, ou que sempre me restou. Não poderia ser-me de novo íntegro ao bem de outrem, pois ouso finalmente ter-me por completo, sem dependências ou vícios, sem ilusões. Assim, quando tua alma enxerga-me como inteiro, e não como metade, entregar-me-ei de bom grado aos seus braços, pois não estamos incompletos procurando uma metade, estamos perdidos procurando um inteiro. Somos completos em si. Compartilhados entre nós. Transmutando-se em constelações ainda maiores, num sonho azul de inverno, ou num beijo quente de verão.

João Pedro S. Teixeira

Graduando em Jornalismo e cinéfilo por paixão.

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