//Opnião: A Greve de O Diário e a individualidade no jornalismo

Opnião: A Greve de O Diário e a individualidade no jornalismo

Greves são coisas comuns em tempos nos quais ameaçam direitos e se exploram profissionais. No dia 7 de março de 2018, a greve dos jornalistas de O Diário, impresso da cidade de Maringá, completa um mês de muitos atos públicos, protestos e nenhum pagamento aos trabalhadores, com salários atrasados e pouco diálogo por parte dos patrões. É a maior greve de jornalistas do Paraná que se tem notícia.

Aliás, greves de jornalistas não são episódios muito comuns em nossa história. As pessoas certamente estão mais habituadas com greves de bancários, funcionários públicos, industriais, etc, mas não de jornalistas. Por que? Será que as empresas respeitam tanto o trabalho dos profissionais da redação? Na verdade, não se trata nada disso.

Hoje em dia, a estrutura de muitos veículos de comunicação, especialmente rádios e jornais impressos, sofre com precariedade financeira. Seja por um modelo de negócio falido ou uma má-gestão de recursos, empresas desta natureza raramente pagam um salário verdadeiramente satisfatório a seus profissionais, que acabam se sujeitando a trabalhar por pouco, fazendo muita coisa de graça.

Na verdade, a falta de empenho dos jornalistas em lutar pelos seus direitos pode estar relacionada à uma cultura que se criou de forma espontânea no imaginário destes profissionais. Há em nossa classe profissional um senso de individualismo, e não de compaixão e cumplicidade ao pares. Há quem fale até mesmo em “briga de ego”.

Como resultado da cultura individualista de boa parte dos profissionais, os sindicatos ficam enfraquecidos, com baixa adesão e pouca força para ajudar na defesa dos direitos dos jornalistas. Sem pressão, as empresas continuam pagando pouco e os profissionais continuam trabalhando.

Por isso a greve de O Diário é um episódio bastante marcante na história da luta por direitos no jornalismo do Paraná e até mesmo a nível nacional. Os atos públicos dos grevistas têm atraído atenção e empatia por parte do público, mas os patrões também não parecem querer recuar. Então é possível que estes acontecimentos tenham ainda bastantes desdobramentos a curto, médio e longo prazo.

De qualquer forma, os colegas de O Diário dão uma lição de solidariedade à nossa classe profissional. Quem sabe, desta forma, todos os jornalistas possam lutar por condições dignas de trabalho, que também ajuda na manutenção de um jornalismo de qualidade, luta, envolvimento e fiscalização, como tem que ser – e aprendemos na faculdade assim.

Texto por Matheus Dias.

Matheus Dias é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa.